Durante o período que estive no Peru, participei de um projeto de trabalho voluntário para a ONG All Hands. O trabalho? Construir uma escola. Do zero. Trabalho de obra mesmo, levantar parede, fazer o piso, emoldurar janelas e tudo o mais.  O trabalho é pesado, mais difícil do que eu esperava. A ONG All Hands tem um cronograma de obra a seguir, e portanto, fazem o possível para não atrasar. E mesmo sendo trabalho voluntário, ninguém fica de corpo mole por lá. Há quem consiga dar um gás insano, há quem trabalhe regularmente, mas todos sempre trabalham empolgados!

Trabalho voluntário Peru
Foto: Florian Lubian

Como é a rotina do trabalho voluntário na ONG All Hands?

Trabalhamos 6 dias por semana, com direito a três refeições, sendo os domingos livres, sem refeição. Despertamos às 6h, quando o café da manhã está liberado (dois pães, um ovo e café). Alguns temperos, margarina e óleo são disponibilizados também. Cada um prepara o seu café da manhã e normalmente compramos nossos complementos – suco, frutas, queijos, geleias, guloseimas.

Algumas manhãs temos reunião às 6h40, com os avisos do dia, recepção de novatos e despedidas. Como estão construindo duas escolas ao mesmo tempo na cidade de Chulucanas, cada voluntário se inscreve em um local de trabalho para o dia. Às 7h todos devem estar nos caminhões que levam ao local das obras. São 20min de transporte em média até o local, onde recebemos os informes sobre o trabalho do dia e nos inscrevemos nas tarefas disponíveis.

Trabalho voluntário Peru
Foto: Florian Lubian

Na obra, nos juntamos aos trabalhadores locais e voluntários da comunidade. Os contratados têm boa experiência em obra e seguem com a ONG desde que se instalaram no Peru, ou seja, já conhecem bem a rotina de trabalhar com voluntários de diversas origens e são bem respeitosos.

Às 10h30 temos um intervalo de 10 minutos, onde normalmente compramos um lanche na casa de apoio local, onde oferecem suco a 1 sol e sanduíches a 2 soles.

Às 12h temos o almoço, servidos por duas cozinheiras locais – rotativas, para dar oportunidade a mais mulheres da região – separados em vegetarianos e não-vegetarianos. O local de almoço é próximo às escolas, em um ponto central, em média de 7 min de distância a pé do local de trabalho.

A comida é sempre bem temperada e saborosa. E com a fome de tanto trabalhar, ela fica melhor ainda! Normalmente comemos arroz, algum tipo de feijão, frango ou carne e salada (legumes na maioria). Para vegetarianos, o frango é substituído por omelete e às vezes abacate. Minha dica é variar na inscrição – uma semana como carnívoro e na próxima como vegetariano – para aproveitar a variedade de opções. Às 13h voltamos ao trabalho, com um novo intervalo às 15:00 e retorno à base por volta de 16:30.

Trabalho voluntário Peru

É obrigatório o uso de itens de segurança como capacete, luvas, máscara e óculos de proteção, sendo somente o capacete fornecido pela ONG. Na base, ficamos livres até às 18h. Neste intervalo, o pessoal normalmente vai resolver as coisas na cidade (mercado, padaria, farmácia, banco, loja de telefonia) ou fica na base jogando vôlei, tomando uma cerveja, relaxando. A fila para os banhos é grande, e eu tentava sempre ir o mais rápido possível. Às 18h o jantar está liberado e algumas noites às 18h30 tínhamos reuniões com informes gerais, recepções e mais despedidas.

Trabalho voluntário Peru

A limpeza da base é obrigatória e rotativa entre os voluntários. Então durante uma manhã, dois voluntários permanecem para limpeza da cozinha, banheiros e arrumação geral dos ambientes comuns. São os chamados carinhosamente de Cinderelas.

Do trabalho voluntário à comunidade

Algumas atividades com os locais acontecem naturalmente. Futebol no campo da base, uma cerveja após o trabalho, uma ida à discoteca local aos sábados.

Enquanto eu estive lá, por ser basicamente em período de férias entre Dezembro e Janeiro, não havia muitas atividades com a comunidade, mas normalmente eles organizam aulas de inglês (infantil, juvenil e adulto), aulas de culinária e dança, círculo de sagrado feminino e brincadeiras com as crianças. Participei somente de uma destas atividades e foi maravilhoso. Aprendi a fazer Ceviche e Ajíde Gallina e depois dançamos um pouco reggaeton. Em outra oportunidade, para uma apresentação de recepção da Petra e sua comitiva à base, aprendi também a dançar negroide, um ritmo afroperuano muito divertido.

Trabalho voluntário Peru
Foto: Florian Lubian

Do trabalho voluntário à amizade

O grupo é bastante unido! Boa parte do pessoal que estava como voluntário na ONG já tinha tido alguma experiência com o All Hands antes, principalmente no Nepal! Um dia fomos a um vilarejo ali perto onde produzem cerâmicas maravilhosas e muito baratas, também fizemos churrasco no rio, onde a comunidade normalmente vai também. Ali perto da base tem um morro que subimos para apreciar o pôr-do-sol, e há também um passeio para uma cascata ali perto.

Trabalho voluntário Peru

Para os mais aventureiros, as praias ficam a uma média de 4h de distância (normalmente para ir nos finais de semana emendados ou folgas obrigatórias – quem passa bastante tempo por lá precisa sair da rotina e descansar).

O staff promove algumas brincadeiras e disputas entre os voluntários com brindes, para estimular a interação e a arrecadação de fundos. Dão cerveja, moletom, souvenirs, chocolates para quem mais arrecada fundos, ou pra quem é votado “voluntário da semana” pelos colegas.

Ainda, conversando com os colegas, chegamos à uma conclusão quanto à linha do tempo do voluntário:

1ª semana: dores musculares.
2ª semana: piriri
3ª semana: cansaço
4ª semana: gripe
2º mês em diante: você aprende a rotina e melhora o desempenho. Haha

Eu, assim como diversos outros, segui certinho essa cronologia. Só não peguei gripe como os demais, porque me preveni bastante com remédios, mas me queimei e tinha muitas cãibras na mão.

Apesar disso, se eu recomendo? Absolutamente!

Para mim, que esperava muito por essa oportunidade, esta experiência superou as minhas altas expectativas. A ONG é bastante eficiente em seu propósito, ainda mais ao se comparar com ong onde não há muita disciplina ou organização. O repertório do CEO é empresarial, e assim é também a sistematização da ONG. O staff é bastante paciente, respeitoso e trabalhador. A estrutura funciona bem, e a todo tempo vemos o pessoal trabalhando bastante e com um sorriso no rosto.

Convivi com pessoas incríveis neste tempo, cheias de vida, de planos, de reflexões belíssimas sobre a vida. Cada um com a sua experiência, com a sua motivação e bater um simples papo e descobrir um pouco de cada pessoa foi maravilhoso!

Perguntaram para mim o melhor momento que vivi ali e tenho bem claro na memória: Era véspera de Natal e um voluntário brincava com uma criança local com síndrome de down. Ao se despedir, o Alex (a criança), cumprimentou todos os voluntários com um aperto de mão e um sorriso vibrante, desejando feliz natal. Mas parou em frente ao Patrick e abriu os braços para um abraço. O mais profundo que testemunhei em muito tempo. Patrick o abraçou e assim ficaram como se o tempo não importasse. Uma troca genuína de afeto e reconhecimento. Somente quando Alex desejou, o abraço cessou.

Para mim este é o espírito do trabalho voluntário. A doação completa, a entrega absoluta ao propósito, a se fazer presente, a mostrar aos pares que estamos juntos, que a reconstrução destes espaços devastados se faz em comunhão, mãos e corações em sintonia. Que não existe nós e eles, somos todos juntos e precisamos unir as forças para trabalharmos melhor!

Links úteis sobre a coluna Viagens de Impacto

A viagem ao Peru para trabalhar em uma ONG foi o que motivou a começar a coluna Viagens de Impacto. Você pode ler sobre a experiência nestes posts aqui: Quando o Trabalho Voluntário Transforma o Mundo, Primeiras Impressões e Rotina de Trabalho. A partir daí, a Mari escreve sobre outras viagens de impacto e reune diversas dicas e recomendações para quem quiser viajar assim também! A coluna está só começando e ainda tem muito conteúdo a ser divulgado! Não perca nada da série clicando aqui!